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| Uma das Ciclorutas de Bogotá |
Este blog não é destinado apenas aos ciclistas do Rio de Janeiro, mas parece. Sou obrigado a voltar ao tema mobilidade urbana levando em conta a atenção dispensada pelo poder público aos usuários das magrelas.
Um dos meus primeiros posts neste espaço foi sobre como se vende a imagem da "vocação ciclística" de nossa cidade apesar de termos uma malha cicloviária nitidamente voltada para atender aos interesses do corredor econômico, privilegiando áreas a beira-mar na Zona Sul, ao invés de efetivar os postulados da ecosustentabilidade tão em voga nos dias de hoje.
Tempos atrás, circulando pelas cercanias da Praça Mauá visualizei no chão sinalização horizontal típicas das ciclofaixas da Zona Sul (que nunca são respeitadas). Empolgado pela novidade, resolvi consultar o mapa das intervenções na Zona Portuária e o tratamento dado aos ciclistas, que terão um belo boulevard com privilegiada vista para a Baía da Guanabara, com seus novos ícones: o Museu de Arte do Rio e o Museu do Amanhã.
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| Porto integrado ou isolado da Cidade? |
Basta uma olhada superficial no mapa para vermos que a lógica de planejamento não mudou muito. A área mais próxima da costa receberá toda a atenção dos modais de transporte (VLT's, carros e até bicicletas), justamente onde se irão estar situados os novos empreendimentos comerciais e marcos culturais. No entanto, salta aos olhos como a nova malha cicloviária praticamente não se conecta com o centro da cidade chegando apenas próximo à Avenida Presidente Vargas, sendo que não alcança a Central do Brasil.
Considerando que não existe qualquer espaço para a galera do pedal no Centro do Rio, deduzimos que a nova ciclovia não passa de um oásis, uma miragem na desordem urbana na medida em que está desconectada do resto da cidade, sem ligação com alguma outra ciclovia, sem ligação com trem e com as barcas, e um quase conexão com apenas uma estação de metrô. Em suma, com limitada função social.
Fazendo uma pesquisa superficial na internet sobre malhas cicloviárias de outras cidades do mundo e do uso delas para unir diversas partes da cidade, cheguei ao caso da cidade de Bogotá (Colômbia), que possui mais de 10 milhões de habitantes (quase o dobro do Rio de Janeiro) e normalmente citado pelos nossos administradores em seus arroubos de gatomestragem urbanística e um blog chamado "Cycling Inquisition" com uma importante entrevista com Gil Peñaloza falando da transformação de uma cidade antes entregue ao crime apenas com a ocupação do espaço urbano pelos cidadãos e suas bicicletas.
Para aqueles que não estão na vibe de ler o blog indicado, com a entrevista em questão estando em inglês, recomendo apenas uma rápida reflexão sobre o mapa das ciclovias de Bogotá, e de como as diversas rotas se conectam, transformando as ciclovias em um real e efetivo meio de transporte:
Será que é tão difícil imaginar uma cidade onde as ciclovias sejam uma maneira viável de diminuir a sobrecarga dos sistemas de transporte público, de forma limpa e sustentável, aliando a falta de tempo do homem moderno à necessidade de praticar uma atividade física?
Se lhe parece estranho imaginar as ciclovias serão tomadas por hordas de pessoas usando ternos, macacões e outros trajes diversos das calças de lycra, pense como era o trânsito da cidade alguns anos atrás. Não tínhamos tantas motos pilotadas por pessoas de roupa social com pastas de couro na garupa como hoje.
Cumpre a nós, mais uma vez, nos questionarmos que cidade queremos para nós: uma que a gente possa usar de fato, ou uma para aparecer nos folders das agências de turismo mundo afora. Queremos ruas fantasmas dominadas por pedaços de metal de dia e desertos a noite, ou ruas tomadas por pessoas, donas de fato daquele espaço?
E já que você veio até aqui lendo este post, fica a dica para uma interessantíssima palestra TEDx ministrada pelo mesmo Gil Peñaloza, sobre como sairmos dos (bons) projetos para o campo as ações, não apenas copiando modelos pré-existentes e o assumindo como a panacéia de todos nossos problemas, mas adaptando ao que queremos e precisamos. A palestra está em inglês, sem legendas e o sotaque dele não ajuda muito, mas vale a pena o esforço, eu garanto!



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