sábado, 17 de março de 2012

Pedalando nas Estradas de Tijolos Amarelos de Oz

Não precisamos acompanhar muito de perto os noticiários do Rio de Janeiro para tomarmos ciência do Bike World Tour, evento ciclístico que tomará lugar na Praia de Copacabana e no Aterro do Flamengo em 1º de abril.

Em tempos de busca incessante pela sustentabilidade e de luta contra a obesidade, o incentivo ao uso das magrelas surge como opção perfeita de transporte ou de lazer para cidadãos de todas as cidades. Mais ainda no Rio de Janeiro onde, mesmo nem precisamos fazer força para estarmos em algum dos cartões postais mais conhecidos do mundo.

Tentando surfar a onda do momento, as autoridades locais vendem o peixe da "vocação" da cidade para o uso da bicicleta, acompanhado de um dado definitivo: temos a maior malha cicloviária da América Latina e que ainda está em expansão.

Mas tão adequada quanto a iniciativa foi a data escolhida: o dia da mentira.

Infelizmente o ciclista não é respeitado nem por motoristas, nem por pedestres, menos ainda pelos próprios gestores públicos. E não é difícil chegarmos a essa conclusão. Basta andarmos nas ruas para vermos como a bicicleta não está na ordem do dia.

Se restringirmos a nossa análise aos caminhos da Zona Sul para os usuários lúdicos até que vamos bem. Com a orla e a Lagoa a nossa disposição temos todos os elementos à mão para uma tarde de pura diversão.

Só uma ressalva! Localizadas na parte de dentro dos bairros, onde não há como se construir ciclovias com separação física, as ciclofaixas são delimitadas por linhas e tachas afixadas no chão, insuficientes para coibir o uso irregular por pedestres e, especialmente, por motoristas que passam por cima delas sem muita cerimônia, seja para fugir do tráfego, seja para "estacionar rapidinho". Quem mora em Copacabana sabe bem do que eu estou falando.

Mas quem usa a ciclovia para o trabalho? E quem não mora na Zona Sul? Esse não tem muita vez.

Como já comentado em post anterior o projeto das bicicletas SAMBA (vulgo Laranjinhas do Itaú) não montou estações no Centro da cidade ou na Zona Norte. Nem mesmo na Barra. O mapa das estações mostra que o número de pontos de acesso ao sistema diminui a medida que se aproxima do Centro onde há apenas duas estações PREVISTAS, porém não operacionais.

Mas para que estações no Centro se não há ciclovias ou ciclofaixas por lá? Pois é. O bairro não é acolhedor para o ciclista reservando suas ruas e avenidas apenas para carros e ônibus. Com um mínimo de estrutura, certamente moradores de áreas mais próximas fariam uso do transporte limpo ao invés de colaborarem com a superlotação dos ônibus e do metrô.

E se não atende a área central da cidade, como será o tratamento dado aos ciclistas da Zona Oeste? Se considerarmos que ao menos estão construindo ciclovias novas, vamos até achar que estamos indo bem. Mas também não é verdade.

Campo Grande, Bangu e Santa Cruz carecem de grandes áreas de lazer para seus moradores. O uso das magrelas para o lazer só é visto nas ruas internas de sub-bairros e condomínios, sem a estrutura ou sem que haja qualquer interferência do Poder Público.

O projeto das ciclovias na Zona Oeste encampado pela Prefeitura se baseia no uso da bicicleta como meio de locomoção. Mas a concepção dos caminhos construídos é tão ficcional quanto a Estrada de Tijolos Amarelos de OZ.

Sem entrar no mérito do duelo entre o Prefeito e a oposição sobre o projeto e os custos elevados para o tipo de obra, dá pra ver que o traçado e a concepção da ciclovia da Zona Oeste está fadada ao fracasso. Ela passa por onde dá, e também por onde não dá.

Em Botafogo, a ciclovia se reparte em duas para fazer uso do Túnel Novo, da passagem subterrânea de General Severiano, de árvores, etc. Na Zona Oeste, o traçado se mantém, como se o obstáculo não existisse. O usuário tem que desviar dos obstáculos mais inacreditáveis como pontos de ônibus, subidas de passarelas, hidrantes, orelhões e etc saindo da própria ciclovia e indo andar na rua junto com os carros.

O traçado faz uso de ruas com movimento intenso de pessoas e veículos, tornando o pedalar um exercício de absoluta destreza onde você escolhe ser atropelado por um carro ou por passar por cima de pedestres.

É curioso perceber que as calçadas escolhidas para receber a ciclovia são estreitas em sua maioria. Tão inadequadas que mal cabem duas bicicletas em mão e contra-mão.

E mais, você pode chegar a Campo Grande, mas não passar por Campo Grande, já que a ciclovia desaparece no miolo do bairro. Non sense total.

Ou seja, ainda temos que pedalar muito para garantir à população que o acesso ao uso da bicicleta saia dos discursos e venha para as ruas. E sem árvores na frente.



sexta-feira, 16 de março de 2012

Olho Grande Não Entra na China, Mas Manda no Engenhão



Como vocês vão perceber este post não tem a ver com mobilidade urbana. Mal começamos esse blog e vou ficar no furo com vocês. Mas não posso deixar de expor minha revolta com o modo como o torcedor/consumidor é mal tratado em nossa cidade.

Acabo de chegar o Engenhão. Naturalmente irritado pelo resultado do jogo e por como ele se desenvolveu. Mas infelizmente não ficou (só) nisso.

Todos que frequentam o estádio tem memorizadas ao menos 3 das várias críticas que recorrentemente são citadas por torcedores e imprensa. As dificuldades de acesso e estacionamento são mais que conhecidas.

Não a toa que dizem que o Estádio Olímpico João Havelange é um "disco voador que pousou em Engenho de Dentro" tamanho o contraste entre suas suas linhas modernas e o bairro que o cerca com ruas estreitas e infraestrutura sofrível.

Eu que sempre prefiro ir de trem para os jogos, fui obrigado a ir de carro, fazendo uso do estacionamento que fica sob o complexo esportivo. E antes mesmo do jogo começar eu já tinha sido roubado ao pagar o estacionamento.

Começa pelo fato que a chegada à entrada demanda muita paciência. Para aqueles que vem pela Rua Piauí, oriundos ou da Av. 24 de maio ou da Rua Goiás o engarrafamento dá o tom. Para os mais iniciados, vindo da Av. Dom Hélder Câmara a situação é apenas um pouco melhor.

O caminho é repleto de flanelinhas de ocasião, prontos para te mostrar a "vaga perfeita". Isso sem falar nas casas e terrenos que abrem suas portas para o parqueamento dos torcedores.

Mas você resolve estacionar no estádio, em nome de uma maior segurança, de conforto e tranquilidade, mesmo que tenha que pagar um pouco mais, não é isso?

Bem, essa última parte a administração (Stadium Rio) entendeu muito bem. Mas só essa. Porque o serviço...

Ao entrar no estacionamento, só descobrimos o tamanho da facada ao chegar ao guichê, quando o retorno, se não impossível, causará enormes transtornos. Ao lado de uma atendente já não assim tão simpática, vemos o preço: R$25,00!

Em tempo: preço igual para carros, motos e vans.

Ano passado, tínhamos uma tabela de valores que partiam de R$10,00 para partidas de menor importância
e R$25,00 em finais de campeonato. A justificativa para o preço de ontem? "Jogo de Libertadores".

Até confesso que na entrada vi algo que não se vê sempre. Agentes de tráfego trajando roupas pretas indicavam onde havia vagas. E só.

Tudo se transforma na hora da saída. O caos se instala. Filas triplas se formam no corredor que chegará nas cancelas onde passam apenas dois carros. A cada vaga que desocupa, esta vira caminho para mais uma "fila alternativa".

E onde estão os funcionários do estacionamento? Boa pergunta!

As meninas dos guichês de pagamento não estão mais lá. O cupom que recebemos na entrada não é cobrado, ou seja, qualquer pessoa pode sair com o seu carro. Os operadores de tráfego que poderiam evitar o caos interno também tinham sumido.

E qual o resultado disso? Ao menos eu demorei UMA HORA para sair de dentro do estacionamento. Bem mais tempo do que foi necessário para sair do entorno do Engenhão até minha casa no Flamengo. Total non sense.

Os problemas de sempre de uma ida a jogo de futebol no Rio de Janeiro como apertos no acesso às roletas, falta de água nos banheiros e bombas de pimenta nos olhos, e agora, o estacionamento do Engenhão neste estado de coisas dá o tom de como não há a menor preocupação com o conforto do torcedor.

Mas esse é apenas mais um passo no processo de elitização do futebol, expressão legítima do povo brasileiro, em especial o carioca. Com preços de ingressos nas alturas, bebidas a preços extorsivos dentro do estádio e agora esse assalto ao parar o carro, só afastam o cidadão médio do Rio de Janeiro. Como um pai de família poderá levar seus dois ou três filhos?

Minha esperança é que com a Copa no Brasil, o povo veja que é possível sim tratar o torcedor de forma decente, e a partir daí passe a reclamar seus direitos.


ATUALIZAÇÃO:

Foi publicada hoje, 11/04/21012, no Blog "Primeira Mão" no portal Globoesporte.com nota sobre o preço cobrado pela administração do estádio por cada vaga no jogo Fluminense x Boca Juniors: http://globoesporte.globo.com/platb/primeiramao/2012/04/11/vaga-salgada/

terça-feira, 13 de março de 2012

"Pague para Andar, Reze para Devolver"

Quem leu o post anterior viu o lado B do belíssimo projeto que é o Bike Rio (ou mobillicidade).

Em uma cidade que se orgulha de ter a maior malha cicloviária da América Latina, esta facilidade já veio com certo atraso, e com tempo vai caindo no gosto do carioca.

Resumidamente, minha irmã, Milena e eu, somados a outros 8 ciclistas na mesma situação, fomos obrigados a aguardar por mais de 1 hora e meia para podermos devolver as bicicletas à estação da Rua Ferreira Viana, já que esta (bem como a estação mais próxima) estavam lotadas.

Naturalmente o aumento de demanda traz novos desafios para o gestor do sistema, bem como para os usuários. E o que aconteceu comigo mostra que os transtornos vem ganhando a briga contra as soluções.

O protocolo manda que, na iminência do fim do prazo do empréstimo (1h) e ante a impossibilidade da devolução, que se contate o sistema pedindo a prorrogação do prazo e, se o caso for, um reboque para o recolhimento das bicicletas excedentes.

E seguindo a linha de muitos dos "bons" serviços a que a população tem acesso, o Mobilicidade oferece dois números: um para a retirada das bicicletas e outro para estas ocorrências extraordinárias. Como era de se esperar, o que vende o serviço funciona bem, e o que existe para resolver problemas testa a paciência do usuário.

Entre os 11 discípulos de Jó que fizeram o protocolo acima mencionado, nenhum conseguiu falar com o operador do sistema de primeira. Muitas mensagens de caixa postal e inúmeras repetições da mesma música são necessárias até que um ser humano apareça do outro lado da linha.

E conversar com um atendente pode até ser reconfortante, mas ainda está longe de uma solução. Que sistema é esse que se promete 10 minutos de espera, e ela dura 12 vezes mais que isso? Que sistema é esse que povilha Copacabana e Ipanema de estações e deixa o povo do Flamengo e Catete (que tem só o Aterro para aproveitar) com apenas dois pontos?

E nesse ponto é vital ressaltar um personagem, um herói anônimo que dá as linhas exatas do que esperamos de alguém que presta um serviço ao público: Robson F. Leite, funcionário da empresa que gerencia o sistema.

Já a caminho de casa, após todo um dia de trabalho em pleno domingo, Robson passa em frente a estação em que os ciclistas se aglomeram, discutindo o sistema enquanto aproveitam o castigo para tomar um chopp. Sua van só comporta 5 bicicletas. Ele, sozinho, não iria resolver o problema. Poderia ter ido para casa. A Doblô, cinza e descaracterizada asseguraria seu anonimato.

Mas não. Ele fez diferente.

Parou. Conversou conosco. Reiterou o pedido de reboque pelo rádio da empresa. E providenciou para que TODOS devolvessem suas bicicletas. Enquanto alguns dos usuários foram para casa terminar seus domingos. Robson ficou ali no meio da rua, com as 11 bicicletas que faziam as vezes de algemas. E aguardou a chegada do reboque, que deu o ar da graça exatas duas horas após a primeira ocorrência ter sido registrada.

E para brindar a noite, e aliviar o dessabor deste que lhes escreve pude ouvir dele a frase que deveria pautar a vida de todos de dependem de atender o próximo: "Não adianta ir para casa e saber que o serviço não ficou perfeito. Em primeiro lugar estão os clientes."


Mas o sistema não pode depender de exemplos de civismo. O sucesso deve ser lastreado em planejamento. Seja pela ampliação das estações ou do número de reboques (medida esta pouco sustentável, diga-se de passagem), ou pela gestão integrada do efetivo de bicicletas. O que não faz sentido é o ciclista ter que esperar por mais tempo do que ele dispõe para usá-la efetivamente.

Uma outra crítica vai para a distribuição das estações. Vendo o mapa, percebemos que, das 60 existentes, a maioria fica em apenas dois bairros, com mais de 40% delas. Nada explica apenas uma estação estar próxima ao Aterro do Flamengo, no Flamengo. E mais duas ou três, já em Botafogo. E nenhuma no Centro. E nenhuma na Quinta da Boa Vista.

Ou seja, a mobilidade ficou no nome apenas, já que o foco fica nos grandes corredores turísticos (onde mais o Itaú vai querer expor sua marca?). As grandes metrópoles trabalham com a ideia de que a bicicleta não se resume a uma opção de lazer, mas sim um efetivo meio de transporte. E o mapa da rede mostra que vamos pedalando no sentido oposto.

Mas isso é tema para o próximo post.

Por Marcos Schettini

segunda-feira, 12 de março de 2012

Quando a mobilidade nos algemou a uma bicicleta

Era domingo a tarde, estávamos em Copacabana e resolvemos fazer um passeio de bicicleta em família. Marcos, minha cunhada e eu retiramos as laranjinhas do Itaú precisamente as 17:57h em frente ao Copacabana Palace. Nosso destino era a estação Ferreira Viana, onde chegamos depois de mais ou menos 40 minutos e uma parada para fotos em frente à belíssima Enseada de Botafogo.


Até então tudo trivial, feito novela de Manoel Carlos. O que nós não esperávamos era que, ao chegar à estação de destino, não teríamos lugares vagos para devolver as bikes. Enquanto minha cunhada tentava entrar em contato com a central, mais usuários do Mobilicidade chegavam com o mesmo objetivo que nós. Alguns já haviam passado por duas ou três estações, também lotadas, antes de chegar até ali. Depois de muitas chamadas que caíram na caixa postal (o que estranho já que é um telefone fixo) e de pelo menos cinco minutos ouvindo uma daquelas musiquinhas sempre irritantes de espera, registramos a ocorrência. Fomos avisados que um caminhão de recolhimento estava à caminho, o que demoraria cerca de 10 minutos. Enquanto aguardávamos e mais pessoas se juntavam ao grupo, alguém sugeriu que ficássemos no bar em frente, uma vez que havia começado a chover e o FlaFlu estava passando na tv. Era óbvio que ninguém estava satisfeito de ter de ficar ali preso, esperando para devolver a bicicleta, mas carioca que se preze sempre faz do limão uma limonada. Depois de uma hora o caminhão, que deveria demorar somente 10 minutos, ainda não havia chegado. As 19:40h, quando já se agrupavam 11 bicicletas em torno do poste em frente ao bar, avistamos uma van e um rapaz vestido com as cores do projeto. Insatisfeitos com a espera e com o fato de que todas aquelas bikes não caberiam numa van, fomos conversar com o funcionário. Para nossa surpresa, ele não havia sido encaminhado pra lá, mas estava passando por ali depois de ter terminado seu expediente e resolveu parar para nos ajudar. Entrou em contato com a central, conseguindo liberar todas as posições que precisávamos, e ali ficou com as bicicletas excedentes esperando pelo caminhão de recolhimento, que só chegou as 20:30h.




Acho a ideia do Mobilicidade fantástica, o que me fez ser usuária assim que soube da existência do serviço. Por este mesmo motivo e como cidadã carioca tenho o dever contribuir para sua melhoria. Pelo que tenho observado, todos os dias começam com bicicletas ocupando todas as posições de cada uma das quase 60 estações localizadas na Zona Sul do Rio. Cada cliente pode retirar e devolver onde quiser, mediante disponibilidade de bicicleta ou posição livre. Durante o dia, devido à grande rotatividade, tudo acaba dando mais ou menos certo e, quando se tem de esperar é por pouco tempo. Já a noite, quando são devolvidas mais bicicletas do que retiradas, as estações mais procuradas para devolução lotam rapidamente. Não sei se os organizadores já diagnosticaram um padrão e, diante dele, estão trabalhando numa melhor solução do que enviar todos os dias os veículos de recolhimento. Entretanto, diante do que se apresentou neste domingo, a solução me parece mais objetiva e simples: no início do dia o número de posições em cada estação deve ser maior do que o de bicicletas. Além disso, o número reduzido de estações em bairros como Flamengo, Catete e Laranjeiras faz com que a distância entre elas desencoraje os usuários a procurar por uma outra para a devolução. Assim, a inauguração de novas estações nestes bairros também contribuirá para a solução do problema.