terça-feira, 13 de março de 2012

"Pague para Andar, Reze para Devolver"

Quem leu o post anterior viu o lado B do belíssimo projeto que é o Bike Rio (ou mobillicidade).

Em uma cidade que se orgulha de ter a maior malha cicloviária da América Latina, esta facilidade já veio com certo atraso, e com tempo vai caindo no gosto do carioca.

Resumidamente, minha irmã, Milena e eu, somados a outros 8 ciclistas na mesma situação, fomos obrigados a aguardar por mais de 1 hora e meia para podermos devolver as bicicletas à estação da Rua Ferreira Viana, já que esta (bem como a estação mais próxima) estavam lotadas.

Naturalmente o aumento de demanda traz novos desafios para o gestor do sistema, bem como para os usuários. E o que aconteceu comigo mostra que os transtornos vem ganhando a briga contra as soluções.

O protocolo manda que, na iminência do fim do prazo do empréstimo (1h) e ante a impossibilidade da devolução, que se contate o sistema pedindo a prorrogação do prazo e, se o caso for, um reboque para o recolhimento das bicicletas excedentes.

E seguindo a linha de muitos dos "bons" serviços a que a população tem acesso, o Mobilicidade oferece dois números: um para a retirada das bicicletas e outro para estas ocorrências extraordinárias. Como era de se esperar, o que vende o serviço funciona bem, e o que existe para resolver problemas testa a paciência do usuário.

Entre os 11 discípulos de Jó que fizeram o protocolo acima mencionado, nenhum conseguiu falar com o operador do sistema de primeira. Muitas mensagens de caixa postal e inúmeras repetições da mesma música são necessárias até que um ser humano apareça do outro lado da linha.

E conversar com um atendente pode até ser reconfortante, mas ainda está longe de uma solução. Que sistema é esse que se promete 10 minutos de espera, e ela dura 12 vezes mais que isso? Que sistema é esse que povilha Copacabana e Ipanema de estações e deixa o povo do Flamengo e Catete (que tem só o Aterro para aproveitar) com apenas dois pontos?

E nesse ponto é vital ressaltar um personagem, um herói anônimo que dá as linhas exatas do que esperamos de alguém que presta um serviço ao público: Robson F. Leite, funcionário da empresa que gerencia o sistema.

Já a caminho de casa, após todo um dia de trabalho em pleno domingo, Robson passa em frente a estação em que os ciclistas se aglomeram, discutindo o sistema enquanto aproveitam o castigo para tomar um chopp. Sua van só comporta 5 bicicletas. Ele, sozinho, não iria resolver o problema. Poderia ter ido para casa. A Doblô, cinza e descaracterizada asseguraria seu anonimato.

Mas não. Ele fez diferente.

Parou. Conversou conosco. Reiterou o pedido de reboque pelo rádio da empresa. E providenciou para que TODOS devolvessem suas bicicletas. Enquanto alguns dos usuários foram para casa terminar seus domingos. Robson ficou ali no meio da rua, com as 11 bicicletas que faziam as vezes de algemas. E aguardou a chegada do reboque, que deu o ar da graça exatas duas horas após a primeira ocorrência ter sido registrada.

E para brindar a noite, e aliviar o dessabor deste que lhes escreve pude ouvir dele a frase que deveria pautar a vida de todos de dependem de atender o próximo: "Não adianta ir para casa e saber que o serviço não ficou perfeito. Em primeiro lugar estão os clientes."


Mas o sistema não pode depender de exemplos de civismo. O sucesso deve ser lastreado em planejamento. Seja pela ampliação das estações ou do número de reboques (medida esta pouco sustentável, diga-se de passagem), ou pela gestão integrada do efetivo de bicicletas. O que não faz sentido é o ciclista ter que esperar por mais tempo do que ele dispõe para usá-la efetivamente.

Uma outra crítica vai para a distribuição das estações. Vendo o mapa, percebemos que, das 60 existentes, a maioria fica em apenas dois bairros, com mais de 40% delas. Nada explica apenas uma estação estar próxima ao Aterro do Flamengo, no Flamengo. E mais duas ou três, já em Botafogo. E nenhuma no Centro. E nenhuma na Quinta da Boa Vista.

Ou seja, a mobilidade ficou no nome apenas, já que o foco fica nos grandes corredores turísticos (onde mais o Itaú vai querer expor sua marca?). As grandes metrópoles trabalham com a ideia de que a bicicleta não se resume a uma opção de lazer, mas sim um efetivo meio de transporte. E o mapa da rede mostra que vamos pedalando no sentido oposto.

Mas isso é tema para o próximo post.

Por Marcos Schettini

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