segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

"Turn Around Yourself"

Brincadeira de Internet "traduzindo" os nomes dos bairros do Rio
Não. Este blogueiro não ficou doido. É óbvio que que esta expressão está errada, não se tratando da tradução do nosso "se vira". Mas eu não duvidaria se me dissessem que ela já foi empregada em nossa cidade para algum estrangeiro recém-chegado à terras cariocas.

Morando próximo a hotéis e hostels, indo a locais públicos como estádios de futebol e shows musicais, ou mesmo usando o metrô não é incomum nos encontrarmos com visitantes conhecendo nossa cidade. Vencida a barreira do primeiro contato (pois muitos fogem de qualquer conversa não-autorizada ou não-necessária), possivelmente encontrará o espanto do turista com o simples fato de que sabe falar em seu idioma. Mas por que isso?

A explicação é bem ilustrada por uma situação que vi, mais uma vez, em uma lanchonete perto de minha casa. Um hóspede de um dos hostels próximos gastou longos minutos até conseguir pedir um simples prato com frango, fritas e salada. Como o estabelecimento não estava cheio e o cliente era esteticamente palatável aos olhos das atendentes, não fez muita diferença. Mas um dia cheio é sinônimo de transtornos para o bar e mais ainda para o cliente. 

Eu já conversei com o gerente, mais de uma vez até, sobre a necessidade de um cardápio em inglês, para facilitar o atendimento, em local visível e de fácil acesso. Talvez pelo sentimento de que um bar como aquele, que trabalha 24h ao dia, em situado em local estratégico não precisa de muita coisa para manter sua margem de lucro, é que até existe uma cardápio nestes moldes, mas que fica guardado ao lado do microondas, do outro lado do balcão, longe das mãos e dos olhos de qualquer turista com olhos de raio-x ou mesmo com poderes mediúnicos que tenha interesse em usá-lo. Enquanto isso, quase uma dezena de versões apenas em português ocupam o balcão, além de toda comunicação visual.
Andar de Ônibus pode ser um desafio...

Tenho como certo que muito deste estado de coisas há de ser corrigido com a chegada da Copa do Mundo e com os Jogos Olímpicos. Ao menos no metrô - e mesmo assim no básico - e nas arenas esportivas. Mas sabemos que não é suficiente. Não podemos contar apenas com a "bolha protetora" da FIFA ou do COI para orientar quem não fala o português: a grande maioria do planeta.

Em recente ida à Argentina, não raro encontrava estabelecimentos com cardápio trilíngue. E muitos prestadores de serviço neste mesmo perfil. É certo que a proximidade geográfica e de idioma entre os dois países facilita muito as coisas, mas o ponto é que se verifica uma maior atenção em atender as demandas dos cidadãos e dos visitantes, especialmente se considerar que é uma cidade com número de bares e cafés acima da média. Estimulada a concorrência, os estabelecimentos ainda oferecem outras funcionalidades como, por exemplo, wi-fi gratuito (ainda raridade no Brasil). Aqueles que já se atualizaram conseguem se destacar e captar mais clientes.

E esta constatação não fica restrita aos restaurantes. Táxis, ônibus coletivos, supermercados, placas de orientação e até, pasmem, recepcionistas de hotéis e pousadas podem ser desafios nada interessantes para quem domina o idioma de Camões. Em outras cidades, exige-se capacitação específica para atender visitantes, e aqui?
Capacitação universal como utopia

Por evidente, a conclusão que se tira de todos estes fatos é que a cidade como um todo, setores públicos e, principalmente, o privado (com ênfase nos pequenos comerciantes), assim como a população de forma geral, vem perdendo a oportunidade destes grandes eventos para se qualificar e potencializar seus lucros através de estratégias mais avançadas do que a simples e oportunista majoração de preços.

Cumpre a nós pensamos que tipo de ajuda nos iríamos gostar em nossas viagens a outro país, e depois, ver se já oferecemos isto a quem nos visita. Tal como em nossas casas, ser anfitrião é uma tarefa que dá trabalho e exige nossa dedicação.

A nossa linda Árvore de Natal da Lagoa
Depois de termos alguns pequenos ensaios, como os Jogos Mundiais Militares, 2013 nos reserva alguns verdadeiros desafios como a Copa das Confederações e a Jornada Mundial da Juventude Católica. Espero que estes eventos acordem a cidade de vez para o fato que a preparação não se restringe a obras encampadas às pressas e a margem do que é legal e moral pelo Poder Público, e que a transformação começa de cada um de nós.

Em tempo, eu desejo um feliz natal a todos os cariocas e demais pessoas que me dão a honra da visita neste blog, concordando ou não com minhas opiniões. Espero contar com vocês em 2013!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Os Predadores Amarelos das Ruas do Rio Aguardam o Dia da Caça

Viagem, fim de ano, início de recesso forense e tempo de sobra para postagens. Muitas ideias na cabeça. Muitos posts e reflexões a caminho. 

Tempos atrás, eu já contei como pode ser uma aventura pegar um táxi no Rio de Janeiro, seja pela surpresa do preço a pagar, seja pela sensação de estar em um brinquedo da Disney. Em um nicho de prestação de serviços com tanta regulamentação do Poder Público Municipal, causa espécie como existe tanta bandalha em nossa cidade. As ruas estão tomadas por táxis piratas, passageiros de portos e aeroportos são reféns de máfias amarelas que cobram o querem, do jeito que querem. Grandes espetáculos se apresentam como perfeitas oportunidades para os motoristas que querem turbinar seu orçamento mensal às custas de desavisados e pessoas desesperadas para chegar à casa.

Recentemente estive em Buenos Aires (que aliás me deu uma outra percepção de cidade) e fiz uso dos táxis. Devidamente munido das várias recomendações que se faz sobre os motoristas locais (como por exemplo as feitas pelo blog do Ricardo Freire, ou ainda aqui), achei o serviço bem prestado. Em momento algum me senti enganado, ou fui constrangido pelo pracista. É bem verdade que a grande maioria dos profissionais não faz muita questão de falar o português, mas ante a proximidade com o idioma espanhol, as dificuldades são superadas com alguma facilidade.

Importante ressaltar que os táxis da cidade argentina são mais preparados para atender ao turista. Atrás do banco do motorista há cartaz com os dados do veículo, além das regras de cobrança e cálculo do valor da corrida, em 3 idiomas, sem contar com a já conhecida identificação do condutor sobre o painel. Bem diverso do Rio, onde trocas de tarifas implicam em viaturas correndo pela cidade com tabelas afixadas nas janelas, com os preços reais a serem cobrados a partir do que mostra o taxímetro.

Em que pese ser um problema que aflige a maioria dos prestadores de serviço da cidade, a maioria da frota não está preparada para atender bem ao turista no que se refere ao idioma e ao próprio conhecimento sobre a cidade. E não me refiro aos endereços, mas quanto aos locais importantes do Rio e sua importância, seja histórica, seja para o dia-a-dia da população.

Resolvi falar sobre táxis novamente em função da chegada dos transatlânticos e ainda de algumas notícias sobre o assunto divulgadas na imprensa. Não sei se já dá para se animar com a maior repressão aos táxis piratas, mas ao menos se vê algo sendo feito nos pontos mais óbvios. Quem passa pela Av. Rodrigues Alves, em frente ao Terminal de Passageiros esta semana viu todo um aparato da fiscalização, verificando os carros que ali passavam. Operação semelhante, ocorreu no Aeroporto Santos Dumont conduzida pela Prefeitura. A promessa é que estas operações tornar-se-ão presentes durante a alta estação. Mas sem dúvida deveria ser estendida a outros pontos como a Lapa, o Baixo Gávea e a Copacabana, e com atuação por todo o ano, tal como temos com a Blitz da Operação Lei Seca.

E justamente dentro daquele conceito de pertencimento que já abordei neste blog, não podemos depositar toda a missão de fiscalizar no colo do Município, e devemos fazer nossa parte denunciando os maus profissionais, ou mesmo, apontando a bandalha, já que sabemos que este esforço do Rio é bem aquém do necessário, tanto que hoje mesmo tivemos uma turista colombiana ferida ao esperar seu troco de R$4,00 em uma corrida vinda do mesmo aeroporto para a Glória, e cuja identificação do veículo envolvido apenas se deu com a participação daqueles que testemunharam o episódio.

 Há muito a fazer  e a evoluir, mas ao menos, surge no horizonte que vamos tomando o caminho certo.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Amigos, Bikes e Samba no Rio de Janeiro...

Não raro lemos em notinhas de jornal sobre títulos e prêmios que a cidade do Rio de Janeiro ganha: "Capital da Simpatia", "Melhor Destino Gay", "Patrimônio Mundial da Humanidade", etc... E essa é uma verdade que vem de muito antes de nos tornarmos a "Cidade Olímpica" ou a sede da "Copa do Mundo FIFA 2014".

Em uma cidade que ainda tem baldes de problemas sociais, preocupações com ladrões e espertinhos que queiram se aproveitar, transporte e organização nem sempre adequados, a grande maioria dos turistas vai embora com gostinho de quero mais. Nós, que ficamos, exercitamos nosso espírito crítico em espaços como este.

Mas o que eu acho mais fabuloso é como é fácil se integrar com grupos e tribos das mais diferentes tendências, pretensões e objetivos em curto espaço de tempo. Buscando uma atividade física, frequentando espaços públicos, eventos sociais ou navegando na rede.

Não precisamos perder muito tempo brincando no google ou no facebook para descobrirmos bandeiras, projetos, revindicações pelas quais vale a pena se lutar. Mas que fique bem claro, que estamos falando de pessoas, e sendo assim, embora importante como ferramenta de divulgação, não basta a atuação virtual. As conquistas só serão alcançadas com real engajamento dos interessados.

E pouco tempo após ter publicado um post sobre o projeto de ciclovia do Porto Maravilha, com vídeo de palestra de como podemos, de fato, ter as magrelas como alternativa real de transporte em nossas vidas, tive contato com tantas informações e pessoas, que não poderia inseri-las aqui como meras atualizações daquele post.

Gostaria de citar três belíssimos blogs! No "Transporte Ativo" não se restringiu o assunto apenas às bicicletas, discutindo-se o transporte de forma ampla, trazendo para o cidadão comum experiências de outros países e reflexões super interessantes como o do post "Proibido Peixe no Metrô", que nos obriga a uma reflexão do que está por trás de cada placa de nossa cidade e mais importante a grande notícia (e que justificaria ser uma atualização): Está se propondo uma rota real para bicicletas no Centro do Rio, bem como em outros bairros da cidade! E o mais importante, através de fóruns coletivos e participação popular.

O segundo blog que mencionei "A Vida de Bicicleta" é mais direcionado ao povo dos pedais, com excelentes dicas sobre oficinas e lojas, artigos sobre o assunto, reportagens que foram divulgadas na imprensa, clipping, etc, com todo o destaque para a luta dos moradores de Laranjeiras e do Cosme Velho para a criação da ciclofaixa e infraestrutura mínima para os ciclistas na principal rua do bairro, onde sem dúvida os carros são prioridade a ponto de termos trechos com calçadas de 20 cm de largura e há sim uma grande demanda reprimida. E olha que já existem bons projetos para resolver esse problema!

Por fim, o portal "Eu Vou de Bike", menos focado no Rio de Janeiro, mas com diversos tópicos interessantes sobre o assunto, experiências de outros países e um amplo espaço para o debate.

Aproveitando o jabá, e falando sobre interação entre pessoas tipicamente carioca, vou falar do 1º ensaio aberto do bloco "Dinossauros Nacionais", fundado inicialmente por ex-alunos da Faculdade Nacional de Direito (UFRJ) e que vai se preparando para seu debut no carnaval carioca, focando seu repertório nas canções dos anos 80. Ainda, já que não custa nada, fica o pedido para que curtam nossa página no facebook!

E por fim, falando em amizades virtuais que se transformam em amizades reais, com lutas reais por objetivos reais, eu presto a devida homenagem aos amigos conquistados na discussão dos rumos do meu time: o Clube de Regatas do Flamengo, através de blogs temáticos ou não: FlaManolos, FlamengoNet, Donas da Bola, Magia Rubro-NegraFlamengo, Aspirinas e Urubus,...

Em tempo: Para Presidente do Flamengo, eu voto Eduardo. Eu voto Chapa Azul!

sábado, 17 de novembro de 2012

Ciclistas no Porto das Maravilhas

Uma das Ciclorutas de Bogotá
Este blog não é destinado apenas aos ciclistas do Rio de Janeiro, mas parece. Sou obrigado a voltar ao tema mobilidade urbana levando em conta a atenção dispensada pelo poder público aos usuários das magrelas.

Um dos meus primeiros posts neste espaço foi sobre como se vende a imagem da "vocação ciclística" de nossa cidade apesar de termos uma malha cicloviária nitidamente voltada para atender aos interesses do corredor econômico, privilegiando áreas a beira-mar na Zona Sul, ao invés de efetivar os postulados da ecosustentabilidade tão em voga nos dias de hoje.

Tempos atrás, circulando pelas cercanias da Praça Mauá visualizei no chão sinalização horizontal típicas das ciclofaixas da Zona Sul (que nunca são respeitadas). Empolgado pela novidade, resolvi consultar o mapa das intervenções na Zona Portuária e o tratamento dado aos ciclistas, que terão um belo boulevard com privilegiada vista para a Baía da Guanabara, com seus novos ícones: o Museu de Arte do Rio e o Museu do Amanhã.

Porto integrado ou isolado da Cidade?
Basta uma olhada superficial no mapa para vermos que a lógica de planejamento não mudou muito. A área mais próxima da costa receberá toda a atenção dos modais de transporte (VLT's, carros e até bicicletas), justamente onde se irão estar situados os novos empreendimentos comerciais e marcos culturais. No entanto, salta aos olhos como a nova malha cicloviária praticamente não se conecta com o centro da cidade chegando apenas próximo à Avenida Presidente Vargas, sendo que não alcança a Central do Brasil.

Considerando que não existe qualquer espaço para a galera do pedal no Centro do Rio, deduzimos que a nova ciclovia não passa de um oásis, uma miragem na desordem urbana na medida em que está desconectada do resto da cidade, sem ligação com alguma outra ciclovia, sem ligação com trem e com as barcas, e um quase conexão com apenas uma estação de metrô. Em suma, com limitada função social.

Fazendo uma pesquisa superficial na internet sobre malhas cicloviárias de outras cidades do mundo e do uso delas para unir diversas partes da cidade, cheguei ao caso da cidade de Bogotá (Colômbia), que possui mais de 10 milhões de habitantes (quase o dobro do Rio de Janeiro) e normalmente citado pelos nossos administradores em seus arroubos de gatomestragem urbanística e um blog chamado "Cycling Inquisition" com uma importante entrevista com Gil Peñaloza falando da transformação de uma cidade antes entregue ao crime apenas com a ocupação do espaço urbano pelos cidadãos e suas bicicletas.

Para aqueles que não estão na vibe de ler o blog indicado, com a entrevista em questão estando em inglês, recomendo apenas uma rápida reflexão sobre  o mapa das ciclovias de Bogotá, e de como as diversas rotas se conectam, transformando as ciclovias em um real e efetivo meio de transporte:

Será que é tão difícil imaginar uma cidade onde as ciclovias sejam uma maneira viável de diminuir a sobrecarga dos sistemas de transporte público, de forma limpa e sustentável, aliando a falta de tempo do homem moderno à necessidade de praticar uma atividade física? 

Se lhe parece estranho imaginar as ciclovias serão tomadas por hordas de pessoas usando ternos, macacões e outros trajes diversos das calças de lycra, pense como era o trânsito da cidade alguns anos atrás. Não tínhamos tantas motos pilotadas por pessoas de roupa social com pastas de couro na garupa como hoje.

Cumpre a nós, mais uma vez, nos questionarmos que cidade queremos para nós: uma que a gente possa usar de fato, ou uma para aparecer nos folders das agências de turismo mundo afora. Queremos ruas fantasmas dominadas por pedaços de metal de dia e desertos a noite, ou ruas tomadas por pessoas, donas de fato daquele espaço?

E já que você veio até aqui lendo este post, fica a dica para uma interessantíssima palestra TEDx ministrada pelo mesmo Gil Peñaloza, sobre como sairmos dos (bons) projetos para o campo as ações, não apenas copiando modelos pré-existentes e o assumindo como a panacéia de todos nossos problemas, mas adaptando ao que queremos e precisamos. A palestra está em inglês, sem legendas e o sotaque dele não ajuda muito, mas vale a pena o esforço, eu garanto!

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A Copa do Mundo é... digo, a CIDADE é nossa!

     Esse blog, nascido no início do ano, deu uma pausa nas suas atividades, voltando poucos dias antes do 1º turno. Para aqueles que me conhecem, sabem que militei pelo candidato Marcelo Freixo, em grande parte pelo questionamento que há muito tempo faço a cada projeto apresentado pelo Poder Público: Que cidade nós queremos para nós?

     Não é minha intenção transformar o Pra Falar do Rio em uma trincheira ideológica contra o Prefeito recém-reeleito ou quem quer que seja. Se foi pela via democrática que candidato e projetos foram escolhidos como os mais adequados para os nossos próximos quatro anos, não é de outra forma que é dever do cidadão analisar e propor outros caminhos e soluções, sem deixar de bater palmas quando entender conveniente.

     Mas para que essas palavras não morram no mar de desabafos em que se transformou a internet, entendo ser preciso começarmos discutindo um sentimento: o pertencimento.

     Não sou sociólogo, ou conhecedor das ciências sociais. Não vou fazer uma resenha de algum livro que discuta a relação entre o público e o privado como é "O Jardim e a Praça", de Nelson Saldanha. Estou falando da vibração que vem das ruas, com o comportamento das pessoas diante do mundo que se constrói ao seu redor.

     Umas das pautas desta semana que passou foi sobre a lúdica prática do "altinho" na Praia de Ipanema. Sem entrar no mérito da atuação desastrosa da Guarda Municipal, incapaz que aplicar o código de posturas da cidade, vem o comportamento inicial dos banhistas não se limitando à prática do jogo em si, mas passando ao ponto de desafiar a autoridade.

Quantos guardam o lixo na bolsa até achar uma lixeira?
     "A praia é local público". Quantas vezes ouvimos esta expressão? E não apenas na praia. Agora reflita, quantas vezes esta frase foi dita na sua frente para justificar uma norma ou regra de convivência e quantas vezes ela foi usada justamente com a finalidade oposta? E mesmo assim, muitas das vezes a primeira aplicação não acontece por outra razão que não o interesse de quem a está defendendo.

     Não é outra a justificativa dada por donos de cães que andam pela areia, jogadores de frescobol, etc... Particularmente não acho o "altinho" tão perigoso assim para aqueles que caminham junto ao espelho d'água.  Só que não é essa a posição "oficial" da sociedade. E se o local é público, valem as regras da maioria.

  Existe uma analogia muito boba, ensinada pelas nossas mães, quando tomava conta do nosso comportamento em casa, pois afinal "começa em casa, e acaba fazendo na rua". Quando crescemos, "evoluímos" esse conceito para "tem coisas que fazemos na rua, mas não fazemos em casa".

     Isso sem falar no clássico, "não faça com o coleguinha o que não quer que ele faça contigo".

     Será que se tivéssemos na rua o mesmo cuidado e asseio que temos em casa, veríamos as ruas tão sujas, com todo o tipo de papel ou embalagem jogados no chão? Não é possível acreditar em banheiros químicos limpos, ao invés dos em estado de semi-interdição típico das grandes festas? É tão difícil sonhar com um trânsito os cruzamentos não estarão bloqueados por falsos espertos?

Atire a primeira pedra quem nunca fechou um cruzamento?
     Mas nem tudo está perdido. Já há cariocas com esta consciência.  Organizados como no movimento "Rio Eu Amo Eu Cuido" ou em ações isoladas de cidadãos no dia-a-dia. Não importa, fazendo a nossa parte, já fazemos muito.

     Não adianta falarmos em militância política. Ou em engajamento de causas sociais. Em primeiro lugar temos que mostrar, por meio de ações, que fazemos questão de cuidar do nosso cantinho, e que carinhosamente chamamos de "nossa cidade". Nós moramos nela. Nós somos ela. É natural queremos saber o que acontece nela e participar para que as coisas sejam do jeito que achamos que deve ser.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Fiscalizar, mas só até a página 2...

O manto negro aos poucos vai cobrindo tudo. A floresta cheia de ruídos e mistérios já estaria tomada inteira pelo breu não fosse a parca luz de uma fogueira que teimava em não se apagar. A cada crepitada da lenha quase em brasas, o acampamento vivia velozes segundos de alívio, logo substituídos por intermináveis minutos de apreensão. Afinal, eles estavam lá a sua volta. Muitos deles. Olhos brilhantes. Guardando o perímetro. Esperando a oportunidade que havia por vir.

Não, senhores, não pretendo contar uma historinha de aventuras. Esse blog é sobre o Rio de Janeiro. Mas a descrição acima, com adaptações pode ser usada na nossa cidade quando ao assunto é Táxi. Antes de mais nada, quero deixar claro que não se trata de preconceito ou esteriótipo. Em qualquer atividade profissional há pessoas sérias e há picaretas. Mas alguns ofícios tem lugar no coração das pessoas, outras não. Afinal quantas vezes já não ouvimos que "todo advogado é safado"? O mesmo se aplica aos taxistas.

Evidentemente que na frota de milhares de táxis do Rio de Janeiro temos muitos pracistas sérios, bem educados, bem informados e que honram a profissão. E o que eles fazem não é notícia. Os picaretas sim, são alvo das histórias e que passam compor este post e alguns outros que poderão vir.

Aliás, a capacidade de separar o joio do trigo é qualidade que a Prefeitura não tem. Quando o Poder Público fala em fiscalização, ele está pensando em arrecadação, mas nunca em qualidade.

Pense no seu carro, e no trabalho que ele te dá no início do ano com IPVA e vistoria anual. Para o pracista esses inconvenientes são exponencialmente maiores. Há vistoria de taxímetro, do tanque de gás natural, do próprio veículo, etc...

E isso sem uma estrutura própria e adequada para que eles não percam um dia inteiro de trabalho. Basta imaginar que a vistoria da SMTR é em Jacarepaguá, mas basta cair em exigência que o taxista tem que vir ao Centro do Rio e voltar para refazer a vistoria!

As blitz à luz do dia para caçar e arrecadar acontecem. Mas quando cai a noite, a praça fica sem lei. Na Lapa, ou nos blocos de carnaval, ou em qualquer outro grande evento esportivo. Ali NÃO TEM FISCALIZAÇÃO. Taxistas credenciados desonestos, e mais ainda, taxistas piratas ali fazem a festa.

Quem frequenta a Lapa já conhece o script: começa pelo assédio dos "chamadores de táxi", que "conseguem o cliente" para o pracista, e passa pelo momento em que este decide se você, passageiro, cliente, contribuinte, serve ou não serve para ele. Se a viagem é longa, que ótimo! Você chegará em casa (em tese) sem problemas. Agora, se você mora perto da Lapa, problema é seu, afinal ele não ficou na fila pra uma corridinha até a Glória ou Botafogo.

Sem contar com as vezes que o passageiro até consegue a corrida, mas é obrigado a embarcar num carro que transforma uma viagem tranquila em uma tentativa de tele-transporte, dada a velocidade e bandalhas que ele faz. Reclamando, obviamente.

E você que comprou a ideia da Lei Seca, e resolveu deixar o carro em casa para poder beber, fica a ver navios. É dispensado, descartado, e transforma seu fim de noite em tormento. Várias foram as vezes que anotei a placa do veículo e liguei para a SMTR. Mais da metade fui informado que o táxi era pirata, e por isso não poderiam fazer nada.

COMO ASSIM NÃO PODEM FAZER NADA???

Fiscalizem oras! Coloquem uma blitz, como outras tantas, neste locais estratégicos. Façam a abordagem nos táxis que ali estão. Tenho certeza que aqueles que estiverem em dia irão reclamar do incômodo da "dura", mas vão agradecer a diminuição da concorrência de quem não fez por onde para isso.

Caso tenham histórias de viagens de táxi, não deixe de compartilhar conosco nos comentários abaixo.

ATUALIZAÇÃO (26/12/2012)

O programa de humor PORTA DOS FUNDOS, que costuma postar seus vídeos no site Kibe Loco fez uma brincadeira com o que foi retratado neste post. Se na vida real, a pressa do pracista se resume em investigar qual o destino da corrida, o questionário do personagem ganha fácil de qualquer censo do IBGE. Vale a pena dar uma olhada!


Redefinindo o Conceito de Espetáculo

Cenário 1: Rostos apreensivos. Mulheres gritando. Crianças chorando. Homens coçando os olhos em chamas graças a bombas de spray de pimenta. Correria. Caos. 

Cenário 2: Rostos descontraídos. As crianças eufóricas com o que acabaram de presenciar. Os pais discutindo acerca de onde vão comer aquela pizza que tinham combinado.


Qual destes cenários combina com uma saída de espetáculo? Se você respondeu a segunda opção, pode até estar certo, mas certamente nunca foi a um jogo de grande porte no Engenhão.

É impressionante como os personagens envolvidos na organização de um "espetáculo" como deveria ser uma partida do Campeonato Brasileiro de Futebol não planejam. Ou pior, não se movem diante dos erros já diagnosticados e o caos já instalado.

De que adiantam times na briga pelo título, ingressos a preços promocionais, ações diversas de marketing se aquela família ali em cima não pode ir ao estádio sem a certeza de que será mal tratada por aqueles que deveriam lhe servir?

E não pense que é apenas na hora da saída! Incompetência para formar uma fila para entrar no estádio. Vistas grossas ao trabalho livre dos cambistas. Falta de água nos banheiros. Rampas de acesso cheias de poças d'água produzidas pelos próprios ambulantes autorizados que resolvem escoar ali, logo ali, o gelo derretido dos seus isopores.

Como podemos ter um estádio "moderno" como o Engenhão, com suas várias rampas, elevadores, capacidade reduzida, etc como manda o figurino das novas arenas se o acesso ao principal meio de transporte é feito por UMA ÚNICA RAMPA, que é compartilhada com aqueles que só querem ir para o outro lado da via férrea.

Após ser devidamente imprensado e esmagado o usuário chega até a roleta. E daí? O modelo usado APENAS neste estação é bem mais lenta que os outros modelos da rede. E sendo apenas 4 roletas, o resultado é óbvio. Filas que não andam. Pessoas que não conseguem entrar.

E aí entra o último componente, o despreparo dos agentes de segurança. Para que se preparar, estudar para melhor organizar o evento se você tem o cassetete e o spray de pimenta à mão? E não me venham falar em discriminação: homens, mulheres e crianças de todas as idades tem a chance de sentir seus olhos ardendo, junto com a paixão pelo futebol que arde em seu coração.

Paixão essa que é testada a cada ida ao estádio, em conjunto com a paciência, necessária para aguentar o chá de cadeira que a Supervia dá aos passageiros para que as composições saiam.

Não sou engenheiro de transporte. Não sou técnico da área de organização de eventos. Mas sou torcedor. Sou aquele que deveria sair satisfeito do estádio. Aquele que deveria ver que as coisas estão melhorando.

Por que não abrir mais roletas como as que estão estrategicamente posicionadas em frente ao estádio? Mesmo que limitassem ela apenas aos passageiros do ramal Japeri ou Saracuruna!

Por que não construir outra rampa e roletas do outro lado da estação, ajudando inclusive nos clássicos, onde cada uma das entradas poderia atender uma das grandes torcidas.

Por que não criar outra maneira das pessoas atravessarem a linha férrea sem terem que usar a mesma rampa que todos os milhares que vão pegar o trem?

Por que o cidadão não pode ter o mesmo conforto e informação que ele tem acesso quando vai ao teatro ou ao cinema ou a algum show de música?

Muitas perguntas, nenhuma ação e uma certeza: a que o torcedor não é levado a sério.

sábado, 17 de março de 2012

Pedalando nas Estradas de Tijolos Amarelos de Oz

Não precisamos acompanhar muito de perto os noticiários do Rio de Janeiro para tomarmos ciência do Bike World Tour, evento ciclístico que tomará lugar na Praia de Copacabana e no Aterro do Flamengo em 1º de abril.

Em tempos de busca incessante pela sustentabilidade e de luta contra a obesidade, o incentivo ao uso das magrelas surge como opção perfeita de transporte ou de lazer para cidadãos de todas as cidades. Mais ainda no Rio de Janeiro onde, mesmo nem precisamos fazer força para estarmos em algum dos cartões postais mais conhecidos do mundo.

Tentando surfar a onda do momento, as autoridades locais vendem o peixe da "vocação" da cidade para o uso da bicicleta, acompanhado de um dado definitivo: temos a maior malha cicloviária da América Latina e que ainda está em expansão.

Mas tão adequada quanto a iniciativa foi a data escolhida: o dia da mentira.

Infelizmente o ciclista não é respeitado nem por motoristas, nem por pedestres, menos ainda pelos próprios gestores públicos. E não é difícil chegarmos a essa conclusão. Basta andarmos nas ruas para vermos como a bicicleta não está na ordem do dia.

Se restringirmos a nossa análise aos caminhos da Zona Sul para os usuários lúdicos até que vamos bem. Com a orla e a Lagoa a nossa disposição temos todos os elementos à mão para uma tarde de pura diversão.

Só uma ressalva! Localizadas na parte de dentro dos bairros, onde não há como se construir ciclovias com separação física, as ciclofaixas são delimitadas por linhas e tachas afixadas no chão, insuficientes para coibir o uso irregular por pedestres e, especialmente, por motoristas que passam por cima delas sem muita cerimônia, seja para fugir do tráfego, seja para "estacionar rapidinho". Quem mora em Copacabana sabe bem do que eu estou falando.

Mas quem usa a ciclovia para o trabalho? E quem não mora na Zona Sul? Esse não tem muita vez.

Como já comentado em post anterior o projeto das bicicletas SAMBA (vulgo Laranjinhas do Itaú) não montou estações no Centro da cidade ou na Zona Norte. Nem mesmo na Barra. O mapa das estações mostra que o número de pontos de acesso ao sistema diminui a medida que se aproxima do Centro onde há apenas duas estações PREVISTAS, porém não operacionais.

Mas para que estações no Centro se não há ciclovias ou ciclofaixas por lá? Pois é. O bairro não é acolhedor para o ciclista reservando suas ruas e avenidas apenas para carros e ônibus. Com um mínimo de estrutura, certamente moradores de áreas mais próximas fariam uso do transporte limpo ao invés de colaborarem com a superlotação dos ônibus e do metrô.

E se não atende a área central da cidade, como será o tratamento dado aos ciclistas da Zona Oeste? Se considerarmos que ao menos estão construindo ciclovias novas, vamos até achar que estamos indo bem. Mas também não é verdade.

Campo Grande, Bangu e Santa Cruz carecem de grandes áreas de lazer para seus moradores. O uso das magrelas para o lazer só é visto nas ruas internas de sub-bairros e condomínios, sem a estrutura ou sem que haja qualquer interferência do Poder Público.

O projeto das ciclovias na Zona Oeste encampado pela Prefeitura se baseia no uso da bicicleta como meio de locomoção. Mas a concepção dos caminhos construídos é tão ficcional quanto a Estrada de Tijolos Amarelos de OZ.

Sem entrar no mérito do duelo entre o Prefeito e a oposição sobre o projeto e os custos elevados para o tipo de obra, dá pra ver que o traçado e a concepção da ciclovia da Zona Oeste está fadada ao fracasso. Ela passa por onde dá, e também por onde não dá.

Em Botafogo, a ciclovia se reparte em duas para fazer uso do Túnel Novo, da passagem subterrânea de General Severiano, de árvores, etc. Na Zona Oeste, o traçado se mantém, como se o obstáculo não existisse. O usuário tem que desviar dos obstáculos mais inacreditáveis como pontos de ônibus, subidas de passarelas, hidrantes, orelhões e etc saindo da própria ciclovia e indo andar na rua junto com os carros.

O traçado faz uso de ruas com movimento intenso de pessoas e veículos, tornando o pedalar um exercício de absoluta destreza onde você escolhe ser atropelado por um carro ou por passar por cima de pedestres.

É curioso perceber que as calçadas escolhidas para receber a ciclovia são estreitas em sua maioria. Tão inadequadas que mal cabem duas bicicletas em mão e contra-mão.

E mais, você pode chegar a Campo Grande, mas não passar por Campo Grande, já que a ciclovia desaparece no miolo do bairro. Non sense total.

Ou seja, ainda temos que pedalar muito para garantir à população que o acesso ao uso da bicicleta saia dos discursos e venha para as ruas. E sem árvores na frente.



sexta-feira, 16 de março de 2012

Olho Grande Não Entra na China, Mas Manda no Engenhão



Como vocês vão perceber este post não tem a ver com mobilidade urbana. Mal começamos esse blog e vou ficar no furo com vocês. Mas não posso deixar de expor minha revolta com o modo como o torcedor/consumidor é mal tratado em nossa cidade.

Acabo de chegar o Engenhão. Naturalmente irritado pelo resultado do jogo e por como ele se desenvolveu. Mas infelizmente não ficou (só) nisso.

Todos que frequentam o estádio tem memorizadas ao menos 3 das várias críticas que recorrentemente são citadas por torcedores e imprensa. As dificuldades de acesso e estacionamento são mais que conhecidas.

Não a toa que dizem que o Estádio Olímpico João Havelange é um "disco voador que pousou em Engenho de Dentro" tamanho o contraste entre suas suas linhas modernas e o bairro que o cerca com ruas estreitas e infraestrutura sofrível.

Eu que sempre prefiro ir de trem para os jogos, fui obrigado a ir de carro, fazendo uso do estacionamento que fica sob o complexo esportivo. E antes mesmo do jogo começar eu já tinha sido roubado ao pagar o estacionamento.

Começa pelo fato que a chegada à entrada demanda muita paciência. Para aqueles que vem pela Rua Piauí, oriundos ou da Av. 24 de maio ou da Rua Goiás o engarrafamento dá o tom. Para os mais iniciados, vindo da Av. Dom Hélder Câmara a situação é apenas um pouco melhor.

O caminho é repleto de flanelinhas de ocasião, prontos para te mostrar a "vaga perfeita". Isso sem falar nas casas e terrenos que abrem suas portas para o parqueamento dos torcedores.

Mas você resolve estacionar no estádio, em nome de uma maior segurança, de conforto e tranquilidade, mesmo que tenha que pagar um pouco mais, não é isso?

Bem, essa última parte a administração (Stadium Rio) entendeu muito bem. Mas só essa. Porque o serviço...

Ao entrar no estacionamento, só descobrimos o tamanho da facada ao chegar ao guichê, quando o retorno, se não impossível, causará enormes transtornos. Ao lado de uma atendente já não assim tão simpática, vemos o preço: R$25,00!

Em tempo: preço igual para carros, motos e vans.

Ano passado, tínhamos uma tabela de valores que partiam de R$10,00 para partidas de menor importância
e R$25,00 em finais de campeonato. A justificativa para o preço de ontem? "Jogo de Libertadores".

Até confesso que na entrada vi algo que não se vê sempre. Agentes de tráfego trajando roupas pretas indicavam onde havia vagas. E só.

Tudo se transforma na hora da saída. O caos se instala. Filas triplas se formam no corredor que chegará nas cancelas onde passam apenas dois carros. A cada vaga que desocupa, esta vira caminho para mais uma "fila alternativa".

E onde estão os funcionários do estacionamento? Boa pergunta!

As meninas dos guichês de pagamento não estão mais lá. O cupom que recebemos na entrada não é cobrado, ou seja, qualquer pessoa pode sair com o seu carro. Os operadores de tráfego que poderiam evitar o caos interno também tinham sumido.

E qual o resultado disso? Ao menos eu demorei UMA HORA para sair de dentro do estacionamento. Bem mais tempo do que foi necessário para sair do entorno do Engenhão até minha casa no Flamengo. Total non sense.

Os problemas de sempre de uma ida a jogo de futebol no Rio de Janeiro como apertos no acesso às roletas, falta de água nos banheiros e bombas de pimenta nos olhos, e agora, o estacionamento do Engenhão neste estado de coisas dá o tom de como não há a menor preocupação com o conforto do torcedor.

Mas esse é apenas mais um passo no processo de elitização do futebol, expressão legítima do povo brasileiro, em especial o carioca. Com preços de ingressos nas alturas, bebidas a preços extorsivos dentro do estádio e agora esse assalto ao parar o carro, só afastam o cidadão médio do Rio de Janeiro. Como um pai de família poderá levar seus dois ou três filhos?

Minha esperança é que com a Copa no Brasil, o povo veja que é possível sim tratar o torcedor de forma decente, e a partir daí passe a reclamar seus direitos.


ATUALIZAÇÃO:

Foi publicada hoje, 11/04/21012, no Blog "Primeira Mão" no portal Globoesporte.com nota sobre o preço cobrado pela administração do estádio por cada vaga no jogo Fluminense x Boca Juniors: http://globoesporte.globo.com/platb/primeiramao/2012/04/11/vaga-salgada/

terça-feira, 13 de março de 2012

"Pague para Andar, Reze para Devolver"

Quem leu o post anterior viu o lado B do belíssimo projeto que é o Bike Rio (ou mobillicidade).

Em uma cidade que se orgulha de ter a maior malha cicloviária da América Latina, esta facilidade já veio com certo atraso, e com tempo vai caindo no gosto do carioca.

Resumidamente, minha irmã, Milena e eu, somados a outros 8 ciclistas na mesma situação, fomos obrigados a aguardar por mais de 1 hora e meia para podermos devolver as bicicletas à estação da Rua Ferreira Viana, já que esta (bem como a estação mais próxima) estavam lotadas.

Naturalmente o aumento de demanda traz novos desafios para o gestor do sistema, bem como para os usuários. E o que aconteceu comigo mostra que os transtornos vem ganhando a briga contra as soluções.

O protocolo manda que, na iminência do fim do prazo do empréstimo (1h) e ante a impossibilidade da devolução, que se contate o sistema pedindo a prorrogação do prazo e, se o caso for, um reboque para o recolhimento das bicicletas excedentes.

E seguindo a linha de muitos dos "bons" serviços a que a população tem acesso, o Mobilicidade oferece dois números: um para a retirada das bicicletas e outro para estas ocorrências extraordinárias. Como era de se esperar, o que vende o serviço funciona bem, e o que existe para resolver problemas testa a paciência do usuário.

Entre os 11 discípulos de Jó que fizeram o protocolo acima mencionado, nenhum conseguiu falar com o operador do sistema de primeira. Muitas mensagens de caixa postal e inúmeras repetições da mesma música são necessárias até que um ser humano apareça do outro lado da linha.

E conversar com um atendente pode até ser reconfortante, mas ainda está longe de uma solução. Que sistema é esse que se promete 10 minutos de espera, e ela dura 12 vezes mais que isso? Que sistema é esse que povilha Copacabana e Ipanema de estações e deixa o povo do Flamengo e Catete (que tem só o Aterro para aproveitar) com apenas dois pontos?

E nesse ponto é vital ressaltar um personagem, um herói anônimo que dá as linhas exatas do que esperamos de alguém que presta um serviço ao público: Robson F. Leite, funcionário da empresa que gerencia o sistema.

Já a caminho de casa, após todo um dia de trabalho em pleno domingo, Robson passa em frente a estação em que os ciclistas se aglomeram, discutindo o sistema enquanto aproveitam o castigo para tomar um chopp. Sua van só comporta 5 bicicletas. Ele, sozinho, não iria resolver o problema. Poderia ter ido para casa. A Doblô, cinza e descaracterizada asseguraria seu anonimato.

Mas não. Ele fez diferente.

Parou. Conversou conosco. Reiterou o pedido de reboque pelo rádio da empresa. E providenciou para que TODOS devolvessem suas bicicletas. Enquanto alguns dos usuários foram para casa terminar seus domingos. Robson ficou ali no meio da rua, com as 11 bicicletas que faziam as vezes de algemas. E aguardou a chegada do reboque, que deu o ar da graça exatas duas horas após a primeira ocorrência ter sido registrada.

E para brindar a noite, e aliviar o dessabor deste que lhes escreve pude ouvir dele a frase que deveria pautar a vida de todos de dependem de atender o próximo: "Não adianta ir para casa e saber que o serviço não ficou perfeito. Em primeiro lugar estão os clientes."


Mas o sistema não pode depender de exemplos de civismo. O sucesso deve ser lastreado em planejamento. Seja pela ampliação das estações ou do número de reboques (medida esta pouco sustentável, diga-se de passagem), ou pela gestão integrada do efetivo de bicicletas. O que não faz sentido é o ciclista ter que esperar por mais tempo do que ele dispõe para usá-la efetivamente.

Uma outra crítica vai para a distribuição das estações. Vendo o mapa, percebemos que, das 60 existentes, a maioria fica em apenas dois bairros, com mais de 40% delas. Nada explica apenas uma estação estar próxima ao Aterro do Flamengo, no Flamengo. E mais duas ou três, já em Botafogo. E nenhuma no Centro. E nenhuma na Quinta da Boa Vista.

Ou seja, a mobilidade ficou no nome apenas, já que o foco fica nos grandes corredores turísticos (onde mais o Itaú vai querer expor sua marca?). As grandes metrópoles trabalham com a ideia de que a bicicleta não se resume a uma opção de lazer, mas sim um efetivo meio de transporte. E o mapa da rede mostra que vamos pedalando no sentido oposto.

Mas isso é tema para o próximo post.

Por Marcos Schettini

segunda-feira, 12 de março de 2012

Quando a mobilidade nos algemou a uma bicicleta

Era domingo a tarde, estávamos em Copacabana e resolvemos fazer um passeio de bicicleta em família. Marcos, minha cunhada e eu retiramos as laranjinhas do Itaú precisamente as 17:57h em frente ao Copacabana Palace. Nosso destino era a estação Ferreira Viana, onde chegamos depois de mais ou menos 40 minutos e uma parada para fotos em frente à belíssima Enseada de Botafogo.


Até então tudo trivial, feito novela de Manoel Carlos. O que nós não esperávamos era que, ao chegar à estação de destino, não teríamos lugares vagos para devolver as bikes. Enquanto minha cunhada tentava entrar em contato com a central, mais usuários do Mobilicidade chegavam com o mesmo objetivo que nós. Alguns já haviam passado por duas ou três estações, também lotadas, antes de chegar até ali. Depois de muitas chamadas que caíram na caixa postal (o que estranho já que é um telefone fixo) e de pelo menos cinco minutos ouvindo uma daquelas musiquinhas sempre irritantes de espera, registramos a ocorrência. Fomos avisados que um caminhão de recolhimento estava à caminho, o que demoraria cerca de 10 minutos. Enquanto aguardávamos e mais pessoas se juntavam ao grupo, alguém sugeriu que ficássemos no bar em frente, uma vez que havia começado a chover e o FlaFlu estava passando na tv. Era óbvio que ninguém estava satisfeito de ter de ficar ali preso, esperando para devolver a bicicleta, mas carioca que se preze sempre faz do limão uma limonada. Depois de uma hora o caminhão, que deveria demorar somente 10 minutos, ainda não havia chegado. As 19:40h, quando já se agrupavam 11 bicicletas em torno do poste em frente ao bar, avistamos uma van e um rapaz vestido com as cores do projeto. Insatisfeitos com a espera e com o fato de que todas aquelas bikes não caberiam numa van, fomos conversar com o funcionário. Para nossa surpresa, ele não havia sido encaminhado pra lá, mas estava passando por ali depois de ter terminado seu expediente e resolveu parar para nos ajudar. Entrou em contato com a central, conseguindo liberar todas as posições que precisávamos, e ali ficou com as bicicletas excedentes esperando pelo caminhão de recolhimento, que só chegou as 20:30h.




Acho a ideia do Mobilicidade fantástica, o que me fez ser usuária assim que soube da existência do serviço. Por este mesmo motivo e como cidadã carioca tenho o dever contribuir para sua melhoria. Pelo que tenho observado, todos os dias começam com bicicletas ocupando todas as posições de cada uma das quase 60 estações localizadas na Zona Sul do Rio. Cada cliente pode retirar e devolver onde quiser, mediante disponibilidade de bicicleta ou posição livre. Durante o dia, devido à grande rotatividade, tudo acaba dando mais ou menos certo e, quando se tem de esperar é por pouco tempo. Já a noite, quando são devolvidas mais bicicletas do que retiradas, as estações mais procuradas para devolução lotam rapidamente. Não sei se os organizadores já diagnosticaram um padrão e, diante dele, estão trabalhando numa melhor solução do que enviar todos os dias os veículos de recolhimento. Entretanto, diante do que se apresentou neste domingo, a solução me parece mais objetiva e simples: no início do dia o número de posições em cada estação deve ser maior do que o de bicicletas. Além disso, o número reduzido de estações em bairros como Flamengo, Catete e Laranjeiras faz com que a distância entre elas desencoraje os usuários a procurar por uma outra para a devolução. Assim, a inauguração de novas estações nestes bairros também contribuirá para a solução do problema.